WordPress, IA e a falsa dicotomia do desenvolvimento moderno
Esse texto foi originalmente publicado como um artigo no meu Linkedin depois de ler muitos comentários pouco razoáveis sobre o tema, e como teve uma ótima repercussão por lá resolvi o trazer para meu site pessoal.
Se você gostar muito do texto e puder deixar um comentário aqui ou lá no Linkedin e o compartilhar, agradeço muito! Estamos num momento de mercado que, mais do que nunca, educar é preciso!

WordPress X IA é a discussão errada
Talvez você tenha chegado ao meu perfil depois de me ver comentando/debatendo sobre WordPress nos comentários de algum post de terceiros… Ultimamente tenho feito isso com certa frequência, confesso.
Não porque eu ache que WordPress seja a resposta para tudo.
Nada é resposta para tudo (só o número 42), e eu não sou cadelinha de sistema A ou B (nem hater de outros que eu use menos ou não use). Mas sim porque tenho visto algumas discussões sobre WordPress partirem de comparações, premissas que, tecnicamente, simplesmente não fazem muito sentido ou pecam por comparar coisas de focos diferentes.
Vi recentemente frases como:
- “O WordPress acabou/morreu” (Essa eu vejo algumas vezes por ano).;
- “Fazer um site com IA dá muito mais ROI do que usar o WordPress”;
- “Olha esse problema que tive com um plugin. Portanto, WordPress é ruim”;
- “Com o WordPress você não consegue fazer desenvolvimento agêntico (usando IA)”;
- “Por que usar Elementor (pagebuilder) se uma IA pode programar o site inteiro para mim?”;
São discussões interessantes, e aliás a galera da comunidade WordPress brasileira que me conhece sabe que eu mesmo sempre critiquei o uso desenfreado de pagebuilders sem conhecimento técnico para entender o lado bom/ruim disso, como fazer direito, alternativas interessantes, etc.
O problema é que, muitas vezes, estamos comparando coisas que pertencem a categorias diferentes:
- WordPress é um CMS e uma plataforma extensível, usado atualmente por mais de 40% da web segundo o w3techs.com
- Elementor é um plugin pagebuilder que funciona sobre o WordPress.
- Um plugin é um código de terceiros, é software criado e mantido por outra empresa ou desenvolvedor dentro do ecossistema WordPress, mas em 99,9% com ZERO relação direta com a equipe que cuida de tal CMS.
- E usar IA para gerar uma aplicação customizada é uma abordagem de desenvolvimento, com suas próprias vantagens, custos, riscos e responsabilidades.
Olhando isso tudo, colocar tudo isso na mesma comparação e chamar o resultado de “WordPress versus IA” não ajuda muito.
Principalmente porque existe uma pergunta anterior que quase sempre fica de fora:
Qual problema estamos, de fato, tentando resolver?
Se eu preciso de algumas landing pages extremamente simples, talvez o WordPress ou qualquer outro CMS seja mais do que eu preciso, se o foco é performance o melhor seria HTML, CSS e JS apenas, o que dá pra fazer até no bloco de notas se você tiver conhecimento para tal. Seja usando IA ou não, pois ela é meio e não fim (mas claro, te faz ganhar tempo se souber usar bem).
Se estou construindo uma aplicação altamente especializada, talvez um CMS nem seja a arquitetura mais adequada.
Mas, se uma empresa precisa publicar e administrar conteúdo, trabalhar com usuários e diferentes permissões, ter workflows editoriais, APIs, SEO, integrações, e-commerce integrado com um sistema que atualize conteúdo e área de notícias/blog e permitir que pessoas não técnicas operem boa parte da plataforma, substituir tudo isso por software customizado também exige uma justificativa bastante boa.
Essa conta não termina quando a IA gera o código, e repito, código é meio e não o fim.
Código barato de produzir não é necessariamente é algo barato de manter
Essa talvez seja uma das partes mais ignoradas das discussões atuais sobre IA e desenvolvimento.
Hoje podemos produzir código em uma velocidade que seria difícil imaginar alguns anos atrás.
Isso muda muita coisa. Mas velocidade de implementação não elimina responsabilidade técnica.
Alguém precisa continuar a ser responsável pela arquitetura.
Pela segurança , acessibilidade, performance, testes, infraestrutura, atualizações, dependências, manutenção.
E pela evolução daquele software nos próximos anos.
A IA pode reduzir drasticamente o custo de algumas etapas do desenvolvimento, e sim, isso é ótimo e extremamente relevante.
Mas existe uma diferença importante entre “quanto custa gerar esse código?” e “quanto custa possuir, operar e evoluir esse software?”.
São perguntas diferentes, e manutenibilidade e ROI deveria considerar as duas perguntas.
Um problema em um plugin não é automaticamente um problema no WordPress Core
Outra confusão frequente aparece quando problemas em plugins ou temas são tratados simplesmente como “problemas do WordPress”.
Aqui também é importante separar as camadas.
O WordPress “Core”, o CMS em si, é uma coisa e o ecossistema de plugins e temas é outra. E a implementação específica de um projeto é uma terceira.
É tipo eu falar que o carro da Volkswagen é uma coisa, a empresa que decide fazer bancos personalizados pra você colocar no seu carro dessa marca é outra, e a pessoa que vai executar tal serviço é uma terceira parte dessa equação.
Isso não significa que o WordPress possa simplesmente lavar as mãos em relação ao seu ecossistema. Muito pelo contrário.
A extensibilidade é uma das principais características da plataforma. Portanto, questões como qualidade de extensões, segurança, compatibilidade, experiência de descoberta e manutenção do ecossistema são críticas perfeitamente legítimas ao WordPress enquanto plataforma. Mas existe uma diferença entre discutir essas características do ecossistema e atribuir ao WordPress em si um problema causado por uma extensão específica, feita por empresas de terceiros, que sabe-se lá o quão bons são na parte técnica mas que tem seu plugin escolhido apenas pela casca, pelo o que parece fazer bem.
Da mesma forma, instalar dezenas de plugins sem avaliar qualidade, sobreposição de funcionalidades, procedência, manutenção ou impacto de performance e concluir que “WordPress não escala” não constitui, por si só, uma análise da arquitetura do WordPress.
Pode ser simplesmente uma análise daquela implementação. E essa distinção importa, mas raramente é feita sem ser de forma rasa.
Criticar o WordPress é necessário
Nada disso significa que WordPress deva ficar imune a críticas, muito pelo contrário.
Há decisões arquiteturais que podem e devem ser questionadas.
Há dívida técnica acumulada ao longo de mais de duas décadas.
Há desafios de performance em determinados cenários.
Há plugins ruins.
Há temas ruins.
Há profissionais ruins.
Há projetos WordPress mal arquitetados (é o que mais tem).
E existem sistemas construídos com WordPress que provavelmente deveriam ter sido construídos de outra maneira.
Também existem sistemas feitos em React, Laravel, Next.js, Rails, Java, .NET, Astro, Payload, Joomla, Drupal e praticamente qualquer outra tecnologia que provavelmente deveriam ter sido construídos de outra maneira.
Esse não é um fenômeno exclusivo do WordPress.
É desenvolvimento de software.
Por isso, uma distinção me parece fundamental: Criticar o WordPress é diferente de criticar uma implementação ruim feita com WordPress.
Da mesma maneira que criticar uma aplicação React mal construída não significa necessariamente criticar React.
Reconhecer essa diferença não é preciosismo técnico. É essencial para qualquer discussão minimamente séria sobre arquitetura, tecnologia e ROI.
E então chegamos à IA
Aqui talvez esteja a parte mais interessante dessa discussão.
Eu uso IA no meu trabalho praticamente para tudo e acho fascinante o que ela está mudando no desenvolvimento de software.
A capacidade atual de agentes compreenderem bases de código, criarem funcionalidades, investigarem bugs, executarem testes, utilizarem ferramentas e iterarem sobre uma solução está alterando rapidamente a maneira como desenvolvemos.
Mas justamente por isso me causa estranheza uma premissa que aparece com frequência: Por que WordPress e desenvolvimento com IA estariam necessariamente em lados opostos?
Meus Deus, eu uso isso todo dia no meu trabalho (WordPress, Cursor, Claude, ChatGPT, Google Stitch, entre outros) e em menos de 2 semanas fiz todo um dashboard personalizado para o WooCommerce, para a equipe de atendimento da empresa onde trabalho contar com os dados das compras e muito mais funcionalidades ali, criando um verdadeiro Hub de atendimento centralizando diversos dados sobre compras, relatos de clientes, integrações com outros ferramentas que usamos para atender clientes, efetuar trocas e devoluções de produtos, checar separação, envio, notas fiscais de entrada (trocas e devoluções) e saídas (vendas) de pedidos.
Um dashboard inteiro com toda complexidade que um E-commerce envolve em menos de 2 semanas, com as funções vitais funcionando perfeitamente bem (e pormenores não urgentes deixados para depois), e leio por aí que não dá pra fazer algo bom, um simples front-end de site em WP, em menos de um mês?
WordPress não é uma alternativa ao código.
WordPress é software.
É PHP, JavaScript, HTML, CSS, SQL e uma série de APIs e abstrações construídas ao longo de muitos anos.
Há REST API, WP-CLI, hooks e actions, APIs de plugins, de blocos nativos, de banco de dados, ambientes locais de desenvolvimento, testes automatizados.
Há uma quantidade gigantesca de código aberto que pode ser analisada.
E tudo isso também pode fazer parte de um workflow de desenvolvimento assistido por agentes.
Um agente pode criar um plugin ou desenvolver um bloco, pode criar ou consumir endpoints.
Pode criar temas com a maior parte do conteúdo estático em páginas institucionais se você não quiser depender de ler pequenas partes que raramente mudam de um banco de dados que seria consultado sem grande necessidade.
Pode escrever testes, investigar bugs, analisar logs.
Pode executar comandos pelo WP-CLI, refatorar código, automatizar tarefas.
Pode trabalhar sobre uma aplicação WordPress da mesma maneira que trabalha sobre várias outras bases de código.
Isso não significa que todas essas tarefas serão realizadas perfeitamente.
Também não significa que WordPress seja necessariamente a melhor plataforma para desenvolvimento agêntico. Significa apenas que existe algo estranho na premissa de que utilizar WordPress e utilizar IA seriam escolhas mutuamente exclusivas. Não são!
A discussão que eu gostaria de ver
Por isso, a discussão que me interessa não é: “WordPress ou IA?”
Essa pergunta me parece cada vez menos útil.
Prefiro outra: “Como a IA muda a maneira como desenvolvemos com WordPress e em quais situações outra arquitetura passa a fazer mais sentido?”
A partir daí aparecem perguntas muito mais interessantes.
Qual o conhecimento inicial da equipe que estará envolvida no projeto? O quanto são capazes de aprender, evoluir, admitir falhas e melhorar?
Se vou usar WordPress, que partes de um projeto WordPress podem ser automatizadas por agentes?
Como muda o desenvolvimento de plugins quando escrever boilerplate custa quase nada?
Preciso mesmo sempre usar plugins de terceiros para coisas simples que posso fazer com IA se eu tiver o conhecimento para tal (e sim, conhecimento é importante mesmo usando IA, elas não são tão inteligentes quando parecem para leigos). Como muda a decisão entre instalar uma extensão pronta e desenvolver uma funcionalidade específica?
O que acontece com page builders quando gerar interfaces customizadas ou até mesmo usar a ferramenta nativa de blocos fica muito barato?
Como agentes podem utilizar WP-CLI, REST APIs e outras interfaces de maneira autônoma?
Como muda a manutenção de projetos legados?
Qual passa a ser o papel do desenvolvedor?
E, talvez mais importante: se o custo de produzir código está caindo, quais outros custos passam a ter mais peso nas decisões de arquitetura?
Essas são discussões que me parecem muito mais interessantes do que decretar a morte de uma plataforma porque apareceu uma nova ferramenta capaz de gerar código.
WordPress não precisa ganhar essa disputa
Porque, no fundo, não existe disputa.
WordPress não precisa ser a melhor ferramenta para tudo para continuar sendo uma ferramenta extremamente relevante. Nem precisa ser atacado se você preferir outra, eu vou te apoiar a usar outra e te incentivar a aprender a fazer bem com ela.
E IA não precisa substituir WordPress para transformar profundamente a maneira como trabalhamos com ele, talvez aconteça justamente o contrário.
Talvez a IA faça com que algumas das decisões que tomamos hoje ao desenvolver com WordPress deixem de fazer sentido.
Talvez reduza a necessidade de determinados plugins ou temas, gratuitos ou pagos.
Talvez (e espero muito que) mude profundamente o papel dos page builders.
Talvez torne economicamente viável desenvolver funcionalidades customizadas que antes compraríamos prontas.
Talvez transforme a maneira como mantemos projetos WordPress existentes.
E talvez também torne outras arquiteturas mais competitivas em situações nas quais o WordPress anteriormente ganhava principalmente pelo custo de desenvolvimento.
Tudo isso merece discussão. Mas, para termos essa discussão, primeiro precisamos comparar as coisas certas.
Ferramentas não existem isoladamente. Elas resolvem problemas dentro de determinados contextos, para determinadas pessoas, sujeitas a determinadas restrições.
No fim, escolher tecnologia continua sendo engenharia, capacidade, conhecimento prévio de quem faz as escolhas (ou até desconhecimento). E eu seguirei usando WordPress, Typescript, AppScript em planilhas no Google (sim, até lá eu crio scripts), React (fiz um app desktop para lembretes integrado com algumas APIs de serviços que usamos), ou o que um projeto mostrar que é melhor, pois uso muito WordPress sim, mas não apenas ele e não sou fanboy ou hater de tecnologia alguma.
No fim, escolher tecnologia continua sendo… escolha. O resto é torcida (ou em alguns casos, é só clickbait mesmo).

